"Deve-se definir logo o próximo passo e começar a agir", afirma José Augusto Minarelli, da consultoria de "outplacement" (transição de carreira) Lens & Minarelli. Mas o período é difícil: um levantamento deste ano da Universidade de East Anglia (Reino Unido), que compilou dados de 99 pesquisas, apontou que o indivíduo demora mais para se recompor de um desligamento do que de um divórcio, mesmo após retornar ao mercado. Foram entrevistadas 24 mil pessoas. "Na hora de voltar, a pessoa deve mostrar que tomou um susto com a demissão mas conseguiu se recompor rapidamente", diz Minarelli.

Para não ser pego de surpresa, o ideal é que o profissional consiga identificar sinais de que pode ser cortado e manter um canal aberto com a chefia para pedir "feedbacks", segundo a psicóloga e especialista em transição de carreira Telma Guido. "As pessoas criam mecanismos de defesa para não lidar com a possibilidade de perder o emprego, que faz parte da carreira, mas isso só aprofunda o luto quando o desligamento acontece", diz. A administradora Patrícia Ferreira, 36, foi surpreendida com uma reestruturação na empresa onde trabalhava, em São Paulo, que cortou as vagas de outros 35 profissionais.

"Me sentia triste e desprestigiada, porque tinha criado expectativas e sinalizado que queria permanecer. Só depois de um mês comecei a pesquisar o mercado", afirma. Para Joel Dutra, doutor em administração e professor da FIA (Fundação Instituto de Administração), vale também avaliar se a demissão indica o fim de um ciclo de carreira. "Se não há perspectiva de crescimento ou novos desafios, é o momento de talvez até mudar de área", avalia.

A publicitária Débora Yocida, 35, foi demitida de uma empresa do setor financeiro após a licença-maternidade. Foi a chance de investir em uma posição em marketing na área de recreação infantil. "Encontrei uma organização que me agradou, marquei uma conversa com a proprietária e tentei vender habilidades que se encaixam em qualquer setor. Deu certo, fui contratada logo depois." E não há nada de errado em dizer que foi demitido, diz a doutora em administração e professora da USP (Universidade de São Paulo) Tânia Casado. "Há profissionais competentes que estão sem posição por causa do momento econômico ou de uma mudança na empresa", afirma.

Na entrevista, seja honesto e conciso sobre o que aconteceu. "O candidato não pode se envergonhar de sua condição, que é transitória, e quando ele rejeita essa posição de coitado se sente mais confiante", diz Minarelli. A busca pode ser demorada, mas sai na frente quem consegue se manter motivado, seja com cursos de atualização ou até com uma vaga abaixo das expectativas. O publicitário Luiz Andreaza, 36, perdeu o emprego e achou que se recolocaria logo. Não foi o caso. Para pagar as contas, foi para uma empresa de alimentos, pela qual ele abordava pequenos bares e restaurantes para vender palmito, frios e laticínios. "Era jovem e estava subindo rápido na profissão, mas o baque me fez criar resiliência para passar por momentos complicados", conta.

Seis meses depois, Andreaza recebeu uma proposta da empresa onde hoje é diretor-geral. "No fim, a demissão me colocou no caminho certo." Para Casado, paciência é a palavra-chave da recolocação. "O processo é lento, mas não se deve desistir", diz.

SOB NOVA DIREÇÃO
Como usar a rede de contatos

SEM MIMIMI
O desligamento impacta na autoconfiança e é normal que você se sinta desprestigiado. Mas esse sentimento não deve ser comunicado a recrutadores. Deixe a decepção passar antes de buscar uma nova vaga

QUEM INDICA
Jamais envie mensagens para muita gente comunicando o desemprego e pedindo uma nova vaga. É melhor conversar com algumas pessoas para pedir sugestões e, se elas confiarem no seu trabalho, a indicação virá sem esforço

PRÓS E CONTRAS
Faça um inventário da sua trajetória profissional, destacando suas habilidades e fraquezas. A tática ajuda a identificar o que deu errado e dá ideia de setores e empresas que podem se interessar pelo seu perfil

BOM VENDEDOR
Prepare um discurso para possíveis recrutadores: nesse caso, além de ter em mente como contribuirá com a empresa, vale ser honesto sobre o motivo da demissão -bons profissionais também podem ser cortados

Rede de contatos é essencial para garantir visibilidade do candidato

Cultivar uma rede de contatos é fundamental para acelerar o processo de recolocação. Do contrário, até mesmo um profissional bem capacitado pode ser preterido. Isso porque cerca de 80% das vagas são preenchidas por indicação, diz o doutor em administração Joel Dutra, professor da FIA (Fundação Instituto de Administração). E não se trata de "quem indica", mas de uma tendência permanente, aponta a doutora em administração e professora da USP Tânia Casado. "É uma questão de reputação e vantajoso para o recrutador, que poupa tempo na busca pelo candidato ideal."

A administradora Patrícia Ferreira, 36, recolocou-se em uma empresa de tecnologia graças a uma amiga. "Ela já conhecia minhas competências e por isso quis me indicar para a vaga", lembra. A dica é abordar alguns ex-colegas e amigos que confiam no trabalho do profissional, mesmo da antiga empresa, para buscar informações ou até pedir um contato. "Quando busco um conselho em vez de pedir emprego, o interlocutor fica mais propenso a ajudar", diz José Augusto Minarelli, especialista em transição de carreira da consultoria Lens & Minarelli.

Se manter ativo em redes de colegas da faculdade ou frequentar eventos do setor é uma boa ideia. Porém, mais do que passar cartões, é vital criar uma relação de confiança com essas pessoas. "Cada vez mais, quem não articula bem essa rede terá dificuldades para ganhar visibilidade", afirma Bruno Andrade, líder da consultoria em RH da Aon Brasil.

 

Fonte: Folha de São Paulo